| Inspiração indígena na arquitetura alemã |
Cultura / Kultur |
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3ª. Edição: A aventura atrás da exposição "Copyright by Kadiwéu", recentemente exibida no Museu Etnológico de Berlim (Dahlem), mostra como um projeto de arquitetura na Alemanha veio desencadear, pela primeira vez no Brasil, o reconhecimento do direito autoral dos índios sobre sua arte.
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PEDRO MOREIRA Em 1997, o Grupo de Arquitetos Latinoamericanos na Alemanha foi procurado por uma Wohnungsbaugesellschaft que pretendia realizar um projeto de renovação urbana do chamado "Bairro Amarelo" (Gelbes Viertel) em Berlim-Hellersdorf. Um concurso internacional foi organizado, dando ênfase à participação de arquitetos latino-americanos. Vencedor foi o escritório Brasil Arquitetura, de São Paulo, que apresentou uma proposta baseada em elementos da tradição arquitetônica brasileira, provindas tanto do período colonial e da Arquitetura Popular quanto do Modernismo erudito.
Um dos elementos marcantes para a reforma das fachadas era o uso de grandes painéis de azulejos como elemento de hierarquização espacial. Azulejos foram utilizados no Brasil por portugueses, holandeses e franceses nos séculos XVII e XVIII, e também na Arquitetura Moderna, como demonstram os painéis de Portinari no Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro e na Igreja de São Francisco na Pampulha, ou as obras geométrico-abstratas de Roberto Burle-Marx e Athos Bulcão em Brasília.
Após pesar os prós e contras da proposta de participação no projeto, o conselho da tribo aprovou a idéia e decidiu realizar um concurso entre as mulheres da tribo, do qual participaram mais de 90 artistas. Dos 271 desenhos resultantes foram escolhidos 6 para a execução. Devido às normas técnicas, os 50.000 azulejos foram produzidos na Alemanha. Passado o complicado processo de formulação contratual, e vencidos os empecilhos criados pela FUNAI, a comunidade indígena recebeu um honorário equivalente ao de artistas contemporâneos para tal tarefa, fato até então sem precedentes. Este contrato estabelece o direito de uso dos desenhos exclusiva e estritamente para o projeto do Bairro Amarelo. A reprodução dos motivos fica terminantemente proibida sem a autorização da ACIRK, Associação das Comunidades Indígenas da Reserva Kadiwéu. Ao longo de todo o processo, os Kadiwéu contaram com o fundamental apoio do advogado paulista Alain Moreau, que desenvolve trabalho comunitário com a tribo há mais de 25 anos. Tudo isso tornou-se possível após o registro de Copyright dos 271 desenhos, feito na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro. Eles foram pela primeira vez reconhecidos como Arte Abstrata, já que até então a Arte Indígena era encarada como puro artesanato. No registro de cada desenho consta o nome individual da artista, além do direito patrimonial coletivo da tribo. Os honorários foram divididos em duas metades: a primeira foi distribuída igualmente entre todas as artistas participantes, e a segunda, utilizada para o financiamento da viagem das seis vencedoras a Berlim em 1998, acompanhadas por seus representantes legais. Aqui, elas puderam verificar pessoalmente o resultado de seu trabalho, conhecer uma nova realidade e visitar a coleção do Museu Etnológico de Dahlem. Foi uma experiência fascinante: em Dahlem encontrava-se uma coleção de obras Kadiwéu sem igual no Brasil, que foram trazidas para a Alemanha no início do século XX. Era a primeira vez que membros da Nação Kadiwéu puderam ver a Arte de seus ancestrais. Um dos mais importantes registros da cultura Kadiwéu foi feito pelo viajante Guido Boggiani, que viveu na região fronteiriça Brasil-Paraguai no final do século XIX, até ter sido ali assassinado em 1901. Boggiani era fotógrafo e artista plástico, tendo deixado centenas de fotografias, documentos e um diário de viagem. Após a sua morte, este material foi coletado por um outro viajante, o tcheco Fric, que os levou a Praga, onde ficaram ocultos até o início dos anos 90. Desde a realização do Bairro Amarelo, foi possível negociar a liberação do diário de Boggiani com os herdeiros Fric e com o governo tcheco. Este importante documento foi recentemente comprado por um brasileiro e doado ao povo Kadiwéu. Ele foi mostrado na exposição de Dahlem e levado em seguida ao Brasil, onde será peça central de um novo Museu Indígena, que está sendo concebido na Serra da Bodoquena junto à Reserva Kadiwéu. Ainda na mostra em Dahlem era exibida a cerâmica Kadiwéu contemporânea, produzida recentemente por conta de um segundo concurso, que aconteceu em Berlim e trouxe pessoas como Dona Alair, a mulher mais idosa da tribo (89 anos), e o cacique Ambrósio da Silva. Ambos estiveram na capital alemã para a abertura da exposição em maio de 2002 em Dahlem, dando continuidade ao relacionamento entre brasileiros e alemães. O projeto para a reestruturação do Bairro Amarelo dá novo impulso ao intercâmbio entre Brasil e Alemanha, e demostra que o alcance da Arquitetura vai muito além da pura edificação. Se suficientemente compreendida, ela pode desencadear processos sócio-culturais de abrangência maior. (1ª LEGENDA) Colagem com alguns dos desenhos indígenas que participaram do concurso. (2ª LEGENDA) Exemplo de como a arte indígena está presente na arquitetura de Berlim. Foto por Pedro Moreira. (AUTOR) Pedro Moreira, arquiteto e artista plástico brasileiro, foi curador da exposição "Copyright by Kadiwéu" junto com o Dr. Richard Haas, diretor do setor Américas do Museu Etnológico de Berlim-Dahlem. |